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Review | Marvel's Spider-Man 2 — Um potencial mal desenvolvido.



Marvel’s Spider-Man 2

Desenvolvedor: Insomniac Games
Plataformas: PlayStation 5, PC
Gênero: Ação, Aventura, Mundo Aberto
Data de lançamento: 20 de outubro de 2023

Após o lançamento do aclamadíssimo Marvel’s Spider-Man, a Insomniac entrou em uma sequência intensa de projetos. Tivemos Spider-Man: Miles Morales, logo em seguida Ratchet & Clank: Rift Apart e, ainda nesse mesmo período, o estúdio anunciou oficialmente a sequência de Marvel’s Spider-Man junto com o novo jogo do Wolverine. O estúdio realmente estava a todo vapor e, em 2023, Marvel’s Spider-Man 2 finalmente foi entregue, trazendo como principal diferencial a possibilidade de controlar dois Homens-Aranha, cada um com suas próprias histórias e particularidades.

Mas será que trabalhar em tantos projetos grandes em um curto espaço de tempo acabou afetando o jogo de alguma forma?


INTRODUÇÃO

Aqui acompanhamos a história de Peter e Miles meses após os eventos de Spider-Man: Miles Morales. Encontramos Peter, que acaba de conseguir um emprego como professor na escola de Miles, que está em seu último ano do ensino médio. Logo no início da aula, ambos se deparam com o Homem-Areia, que ironicamente causa uma tempestade de areia no local. Os dois abandonam a sala de aula para combater o supervilão, mas acabam descobrindo que o motivo de seu ataque repentino esconde muitos segredos e introduz um novo antagonista vindo diretamente dos quadrinhos: Kraven, o Caçador.




 



ENREDO E NARRATIVA

A história segue praticamente o mesmo molde do primeiro jogo. As sessões obrigatórias de minigames estão presentes, assim como as partes de stealth, seja com o Homem-Aranha ou com a Mary Jane. As setpieces também retornam, agora ainda mais impressionantes, utilizando e abusando do poder da nova geração de consoles. No entanto, o jogo também repete alguns dos erros de seu antecessor — mas vamos por partes.

A narrativa é contada sob a perspectiva de dois protagonistas, como já era esperado. O problema é que fica claro que o estúdio não estava totalmente preparado para equilibrar essas duas tramas. Desde o início, o jogo deixa evidente qual será o fio condutor de cada personagem, porém é a história de Peter que realmente move a narrativa principal e se conecta diretamente com o grande conflito do jogo. Seu arco traz, sem sombra de dúvidas, mais peso emocional do que o do primeiro título, além de apresentar uma ótima dinâmica entre Peter e Kraven como antagonistas. O desenrolar dessa trama é mais intrigante e envolvente.

Já a história de Miles acaba se arrastando durante boa parte da campanha, ganhando relevância apenas quando a narrativa de Peter exige sua presença. Em determinados momentos, a distribuição de missões chega a ser desproporcional, com algo em torno de três missões focadas em Peter para cada uma com Miles. Isso é uma pena, pois a conclusão do arco de Miles é levemente interessante, mas carece de mais tempo de tela e desenvolvimento narrativo. No fim, ele acaba soando como um personagem secundário, mesmo sendo, em teoria, um dos protagonistas do jogo.

Retomando os erros que se repetem, o terceiro ato do jogo anterior já havia sido criticado por conta de seu ritmo acelerado. Em Marvel’s Spider-Man 2, esse problema é elevado à enésima potência. O vilão final é relativamente mal desenvolvido, e os acontecimentos se desenrolam rápido demais para a escala que a missão final exige. Como resultado, o clímax não é tão impactante quanto poderia ser, especialmente considerando que a campanha tem praticamente a mesma duração do primeiro jogo, apesar de ter muito mais coisas a serem contadas.



JOGABILIDADE

Aqui entramos na parte mais elogiada dessa nova fase da franquia da Insomniac. A base da jogabilidade se mantém muito semelhante ao que já foi apresentado anteriormente, mas com algumas adições importantes. A principal delas é a mecânica de aparar golpes, tanto de inimigos comuns quanto de chefes, trazendo uma nova dinâmica para os combates. Essa mudança permite até mesmo “masterizar” alguns confrontos e torna o combate levemente mais rápido, com mais inimigos atacando simultaneamente.

Falando em inimigos, esse é um ponto um pouco decepcionante. Os caçadores, por exemplo, realmente tornam o combate mais desafiador e passam a sensação de serem inimigos que estudaram o Homem-Aranha. Algumas de suas estratégias, como o uso de redes elétricas no ar para dificultar a mobilidade, são bastante interessantes. No entanto, os demais inimigos acabam sendo variações muito similares entre si, basicamente a mesma base com skins diferentes e pequenas mudanças.

Outra grande adição são as asas de teia, disponíveis para ambos os protagonistas. Elas permitem atravessar o mapa em velocidades absurdas, algo que não era possível anteriormente por limitações do hardware do PS4. Esse recurso ajuda bastante quando você está com pressa e cria novas possibilidades de locomoção, mesmo com o tradicional balanço de teia ainda sendo amplamente utilizado.

Quando foi anunciado que o jogo teria dois protagonistas, muitos ficaram empolgados com a ideia de controlar dois Homens-Aranha em um mundo aberto — e com razão. No entanto, o jogo não sabe aproveitar bem essa dinâmica para criar situações realmente interessantes além de setpieces totalmente scriptadas. Não há lutas conjuntas contra chefes, nem puzzles que exijam a cooperação dos dois personagens. O máximo que vemos são algumas missões específicas e encontros aleatórios no mapa em que Miles ou Peter auxiliam no combate. Pelo visto, o slogan “Be Greater. Together.” ficou restrito à campanha de marketing.

Por fim, vale falar das habilidades de cada personagem. Um dos grandes diferenciais do jogo solo do Miles era justamente o quanto ele se distinguia de Peter: mais ágil, com menos gadgets e com poderes únicos. Em Spider-Man 2, ao invés de aprofundar essas diferenças, o jogo faz o oposto, tentando deixar ambos os personagens mais parecidos. Isso empobrece o design da gameplay. Um exemplo claro é o poder de invisibilidade do Miles, que é praticamente deixado de lado. Provavelmente, explorar melhor essas habilidades exigiria mais tempo de desenvolvimento para criar missões específicas, como os jogos anteriores fizeram de forma isolada.

No fim, as maiores diferenças entre Peter e Miles acabam sendo apenas as animações de ataque, o que torna a jogabilidade cansativa após certo ponto da campanha. Isso se agrava pelo fato de que, diferente do jogo anterior, aqui temos menos momentos controlando personagens secundários e menos puzzles — algo que foi bastante criticado no primeiro título. Ainda assim, esses momentos funcionavam como respiros narrativos e mecânicos, fazendo com que voltar a jogar como Homem-Aranha fosse uma recompensa após esses segmentos.



DESEMPENHO

É importante deixar claro que não possuo o computador ideal para rodar o jogo. Minhas configurações foram uma mistura de opções no médio e no alto, com o ray tracing desativado, buscando um desempenho aceitável sem sacrificar demais a qualidade gráfica.

Dito isso, o jogo não se encontra naquele estado deplorável exibido em seu lançamento no PC, mas ainda apresenta alguns problemas. Os mais frequentes durante minha jogatina foram congelamentos ocasionais, mesmo utilizando um SSD NVMe (teoricamente o recomendado), além de cutscenes com o áudio adiantado ao alternar para a tecla Windows. A taxa de quadros também é bastante inconsistente, podendo cair cerca de 20 FPS dependendo do cenário. Ainda assim, o jogo não sofre tanto com stutters. Muito disso provavelmente se deve às novas tecnologias utilizadas, embora seja irônico que um título desse porte ainda enfrente esses problemas.



DIREÇÃO DE ARTE, SOM E TRILHA SONORA

A identidade visual de Marvel’s Spider-Man, apesar de esteticamente agradável, nunca foi seu maior ponto forte. Ela sempre foi mais funcional do que verdadeiramente expressiva, e o segundo jogo segue essa mesma linha. Os visuais são bons, mas nada realmente impressionante.

Uma diferença notável está na paleta de cores. Enquanto o primeiro jogo utilizava tons mais quentes, aqui eles foram substituídos por cores mais frias, provavelmente para refletir a abordagem mais sombria da narrativa. A trilha sonora acompanha bem esse tom. Faixas como “Symbiotic Relationship”, que mistura o tema tradicional com uma eletrônica mais sombria, refletem a corrupção, a tensão emocional e a influência do simbionte sobre Peter. Já “The Great Hunter” aposta em ritmos graves e tensos, transmitindo ameaça e suspense, reforçando o quão perigoso Kraven é como antagonista.

O design de som mantém o mesmo alto padrão de qualidade do primeiro jogo.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Marvel’s Spider-Man 2 tinha tudo para ser uma sequência extremamente criativa e marcante. Apesar de melhorar alguns aspectos do primeiro jogo e atender a certos pedidos dos fãs, a experiência como um todo acaba sendo decepcionante diante de todo o potencial que esse título carregava.


VEREDITO

Esse jogo precisava de mais tempo. Mais tempo de campanha, mais tempo de tela para alguns personagens, mais tempo para refinar o combate, mais tempo para arquitetar as missões e, principalmente, mais tempo de desenvolvimento. Teria sido ele mais uma vítima de prazos apertados e de um possível burnout criativo?

No fim das contas, essa resposta já não importa tanto agora.

Nota: 3.5 / 5.0