REVIEW I Darwin's Paradox mostra que a konami deve continuar investindo em jogo indie.

 




Darwin's Paradox

Desenvolvedor: ZDT Studios
Plataformas: PlayStation 5, Xbox Series X & S, Nintendo Switch, Microsoft Windows
Gênero: Plataforma
Data de lançamento: 02 de Abril de 2026

Durante um tempo, a Konami ficou meio sumida do mercado de games. O foco da empresa acabou mudando bastante, principalmente para as máquinas de pachinko. Mesmo tendo os direitos de várias franquias icônicas e lidando com a saída conturbada do seu maior nome, o lendário Hideo Kojima, a empresa parecia cada vez mais distante do que o público esperava. Nesse período, até chegaram a lançar alguns jogos, mas muitos deles não tinham o mesmo nível de qualidade de antes, e como o pachinko estava dando retorno, a Konami acabou permanecendo nesse caminho por um bom tempo.

Só que, algum tempo depois, a história começou a mudar. A empresa decidiu revisitar suas principais franquias nos consoles, trazendo projetos como o remake de Silent Hill 2, Silent Hill f, o remake de Metal Gear Solid 3 e a coletânea Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 1 — além do Volume 2 já anunciado, que deve finalmente tirar Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots da exclusividade do PS3. Além disso, também há novos projetos envolvendo Castlevania no estilo metroidvania e vários títulos da franquia Silent Hill sendo desenvolvidos com a participação de diferentes estúdios, incluindo parcerias com a Annapurna Interactive.

Mas talvez o ponto mais interessante dessa nova fase seja outro: além de revisitar grandes franquias, a Konami também vem apostando em projetos mais criativos, desenvolvidos por estúdios menores, como Deliver At All Costs e o jogo que vamos analisar hoje, Darwin's Paradox!. A grande questão é: será que Darwin’s Paradox mostra que a Konami realmente voltou ao mercado de jogos para console e PC? E, mais do que isso, será que a empresa está pronta para sair da sombra de suas franquias icônicas e apostar de vez em novas ideias, com mais liberdade criativa?


INTRODUÇÃO

Desenvolvido pelo estúdio francês ZDT Studio, formado por veteranos da indústria, Darwin's Paradox! é um jogo de plataforma 2.5D em que controlamos um polvo chamado Darwin. Logo no início da história, ele e seu amigo são sugados por um OVNI e levados a um complexo industrial da empresa Ufood. A partir daí, nosso objetivo parece simples: invadir o local e resgatar nosso companheiro. No entanto, o jogo rapidamente deixa claro que a empresa esconde algo estranho — e que nem tudo é o que parece.



 

ENREDO E NARRATIVA

Aqui, a construção narrativa é feita de forma simples. Como o próprio estúdio já destacou, o jogo tem forte inspiração em títulos como Limbo e Little Nightmares. Mas, diferente desses jogos, aqui a premissa base já é apresentada logo de início.

Por isso, a principal influência dessas obras aparece na forma como a história é contada: através da narrativa ambiental. Como já temos uma noção do que está acontecendo, o jogo não precisa explicar tudo — ele simplesmente deixa você avançar, observar o ambiente e absorver as informações aos poucos. Cada seção adiciona novos detalhes ao que está acontecendo naquele mundo.

E isso funciona muito bem, justamente porque, ao contrário de jogos onde tudo é mais misterioso desde o começo, aqui o objetivo não é esconder completamente a história, mas expandir o que você já sabe. A gente entende o básico — estamos lidando com algo envolvendo aliens dentro de um complexo industrial —, mas o jogo vai aprofundando essa situação com bastante cuidado. Ele dosa o mistério de forma orgânica, sem parecer forçado, o que é um grande acerto.

Minha principal crítica à narrativa está na forma como ela é usada em alguns momentos para “reensinar” mecânicas. Mesmo após apresentar tudo claramente nos primeiros minutos, o jogo recorre a flashbacks durante a gameplay para lembrar o jogador de coisas que ele acabou de aprender no tutorial. Isso quebra um pouco o ritmo e soa desnecessário.

Ainda assim, fora esse detalhe, a narrativa é consistente do começo ao fim. Você consegue entender bem tudo o que está acontecendo, algo que nem sempre acontece em jogos desse estilo. E o final merece destaque: é interessante, foge do clichê e entrega um cliffhanger de forma natural e criativa — daquele tipo que te faz rir e perceber que o jogo ainda tem mais a dizer.




JOGABILIDADE

A gameplay aqui é bem simples, mas muito bem executada. O jogo se divide basicamente em dois tipos de movimentação: na água e na terra, e o mais interessante é como tudo funciona de forma natural. Em terra, o personagem é mais lento; podemos agarrar objetos, pular, aderir às superfícies e também utilizar a tinta. Esse detalhe da aderência é muito bem aproveitado, já que funciona em diferentes ângulos e é constantemente explorado ao longo da gameplay.

Na água, o controle é mais livre. Podemos nos movimentar com mais agilidade, usar um tipo de “boost” e também interagir com objetos. No geral, as principais mecânicas giram em torno de aderir, agarrar, se camuflar e utilizar tinta — e o mais importante é que nenhuma delas fica esquecida; todas são bem utilizadas do início ao fim.

Um ponto interessante é como o jogo reapresenta essas mecânicas ao longo da campanha. Depois do tutorial, onde aprendemos tudo logo nos primeiros minutos, ele volta a reforçar esses conceitos com o tempo, utilizando o mesmo artifício de flashbacks citado na parte da narrativa. Isso ajuda a relembrar o jogador, embora em alguns momentos possa soar um pouco redundante.

Além disso, o próprio ambiente adiciona variações interessantes. Um bom exemplo é a área da fossa, onde existe um líquido verde que impede os ratos de nos atacarem, mas ao mesmo tempo não permite aderência nas superfícies. Isso faz com que o jogador precise ir e voltar em certos trechos para progredir, mostrando como o level design reforça o uso das mecânicas.

Ao longo do jogo, também temos momentos mais específicos e variados: perseguições na água por passagens estreitas, onde precisamos fugir de criaturas; situações em que usamos o cenário para nos esconder de inimigos com sonar; seções de stealth com inimigos patrulhando a área; uso da tinta para evitar lasers ou interagir com disjuntores elétricos; além de trechos mais focados em plataforma, como atravessar tubulações que alternam temperatura, exigindo precisão no uso da aderência. E nesses momentos mais “plataforma raiz”, — e se prepare para morrer algumas vezes



DESEMPENHO

Por mais que seja um jogo indie, com um escopo mais reduzido, a primeira impressão é que ele vai rodar em qualquer máquina. Afinal, jogos desse gênero costumam ser mais leves e bem otimizados, o que normalmente evita problemas de desempenho. Mas, infelizmente, esse não é o caso aqui.

O jogo utiliza a Unreal Engine 5 — algo que fica evidente pelo visual, com texturas de alta qualidade e um nível de detalhe bem acima da média para um título desse porte. Em um projeto linear e com escopo menor, isso até ajuda a entregar um visual bem bonito, mas claramente faltou otimização.

Nos meus testes, jogando em uma máquina com RX 6600 de 8GB, Ryzen 5 5600GT e 32GB de RAM, o jogo não conseguiu manter 60 FPS constantes. O ponto positivo é que ele não oscila tanto, então a sensação de instabilidade não é tão forte, mas ainda assim o desempenho fica abaixo do esperado. Em média, o jogo rodou por volta dos 45 FPS.

Quando fui conferir os requisitos recomendados na Steam, a situação ficou ainda mais estranha: o jogo pede uma RX 6600 XT para rodar em 1080p a 30 FPS — algo que, na minha visão, é completamente fora da curva. Principalmente quando comparamos com outros jogos mais ambiciosos que também utilizam Unreal Engine 5, como Split Fiction, que entrega um desempenho muito melhor. Na mesma configuração, consegui cerca de 80 FPS no ultra com FSR em modo qualidade em 1440P.

Aqui, mesmo utilizando FSR, o desempenho ainda decepciona um pouco. Além disso, o jogo sofre de um problema recorrente da Unreal Engine 5: stuttering. Em alguns momentos, o FPS chega a cair drasticamente, até mesmo zerando por instantes antes de voltar ao normal.

Dito isso, nada disso chega a tornar o jogo injogável. Ao longo da experiência, o principal ponto que você vai notar é que ele não roda a 60 FPS constantes em máquinas como a minha (ou similares). Fora isso, os stutters acontecem de forma pontual, sem comprometer totalmente a experiência.






DIREÇÃO DE ARTE, SOM E TRILHA SONORA

Essa é uma das partes que eu mais gosto de desenvolver em uma review: falar de direção de arte, som e trilha sonora. Sempre rende análises interessantes, mas aqui, apesar de termos esses três pilares, o maior destaque acaba sendo a direção de arte — e não de forma negativa. Pelo contrário, o jogo é extremamente coerente com o que se propõe.

Antes de entrar no ponto alto, vale começar pelo som. De forma geral, ele é competente: não chega a impressionar, mas também não compromete. Tudo funciona como deveria, sem grandes destaques. Um detalhe interessante aparece quando um guarda ativa o estado de alerta; o efeito sonoro usado ali é claramente uma referência à franquia Metal Gear Solid. Considerando que a publisher é a Konami e que estamos em uma seção de stealth, a homenagem fica bem evidente. No restante, os sons cumprem bem seu papel: o movimento do personagem, a locomoção na água, a aderência às superfícies e, principalmente, os ruídos das áreas industriais, com engrenagens e máquinas em funcionamento. No geral, é um trabalho sólido e condizente com a proposta do jogo, sem a necessidade de ir além disso.

Já na trilha sonora, eu esperava um pouco mais. Ela funciona bem nos diferentes momentos — ação, stealth e exploração — e acompanha corretamente o ritmo das áreas. Um dos destaques fica para a área das máquinas, onde o foco em plataforma é maior e o desafio aumenta; ali, a música consegue dar um pouco mais de tensão e ritmo. Ainda assim, no restante do jogo, a trilha segue um caminho mais seguro e simples. Considerando a premissa — um polvo infiltrado em um complexo envolvendo aliens —, havia espaço para algo mais criativo e marcante. Não é uma trilha ruim, longe disso, mas acaba não sendo muito memorável, especialmente quando comparada a jogos do gênero como Little Nightmares, onde a trilha é parte fundamental da identidade.

Agora sim, chegando no ponto mais forte do jogo: a direção de arte. Darwin's Paradox! aposta em uma estética industrial que flerta diretamente com uma distopia corporativa. Isso já fica evidente na forma como a empresa Ufood é apresentada, sempre reforçando mensagens positivas de forma quase artificial, seja em jornais espalhados pelo cenário ou até em embalagens de comida com frases como “Trust Us, Real Food, for Real Humans”.

Essa sensação é reforçada pelo uso de cores mais lavadas e uma paleta menos vibrante, criando um ambiente que parece artificial e desconfortável. Ao longo da jornada, também encontramos elementos cada vez mais estranhos, como criaturas bizarras, que ampliam a sensação de que há algo muito errado naquele lugar. Cada área traz novos detalhes que fortalecem essa atmosfera, culminando até em momentos que flertam com paródia cultural em segmentos mais avançados do jogo — o que adiciona um toque inesperado de humor. E tudo isso é entregue com bastante consistência, mostrando que a direção de arte aqui não só funciona, como é um dos grandes pilares da experiência.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Darwin's Paradox! é um ótimo jogo indie que bebe da fonte de inspirações como Limbo e Little Nightmares, mas consegue construir uma identidade própria ao apostar em uma narrativa mais acessível e em um forte fator cinematográfico, que reforça e dá mais ênfase à sua história.

Mesmo com os problemas citados ao longo da análise, a experiência se mantém extremamente divertida do início ao fim. O jogo sabe equilibrar bem seus momentos de suspense com toques de humor, quebrando a tensão na medida certa e deixando tudo mais leve e agradável de acompanhar.

No fim das contas, é um jogo que vale a pena ficar no radar: seja se você estiver com um dinheiro sobrando ou esperando uma boa promoção, é uma experiência que merece ser testada — especialmente para quem curte jogos mais criativos dentro do cenário indie.


VEREDITO

Esse jogo não mostra, necessariamente, que a Konami voltou completamente aos trilhos, mas evidencia um caminho promissor. Apostar em estúdios menores, com projetos de escopo reduzido, porém com grande liberdade criativa, mostra que a empresa não precisa viver apenas à sombra de suas próprias propriedades intelectuais.

Além disso, esse tipo de iniciativa indica que sua participação nesses estúdios pode fortalecer ainda mais essa retomada no cenário atual dos jogos — não só revisitando o passado, mas também abrindo espaço para novas ideias e experiências.

Nota: 4.0 / 5.0

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